Como uma reflexão sobre arquitetura abriu um debate mais amplo sobre governança, identidade e valor no mercado imobiliário.
Nos últimos tempos, uma provocação feita pelo cantor João Gomes sobre a arquitetura brasileira ganhou espaço no debate público e entre profissionais do setor. Ao questionar a repetição excessiva de soluções, tipologias e linguagens, ele trouxe à tona a percepção de que muitas cidades estão se tornando visual e conceitualmente iguais.
Embora a discussão tenha surgido no campo arquitetônico, ela revela algo maior e profundamente conectado ao desenvolvimento imobiliário. Mais do que estética, a padronização excessiva reflete um modelo de pensamento que prioriza fórmulas conhecidas em detrimento da diferenciação estratégica.
No mercado imobiliário, essa escolha impacta diretamente o posicionamento dos projetos, sua longevidade e a forma como são percebidos por consumidores, investidores e pelo próprio território onde se inserem.
Da crítica arquitetônica à estratégia imobiliária
A crítica não é sobre ousadia estética ou ruptura gratuita. Ela aponta para um comportamento recorrente do mercado: repetir o que já funcionou como forma de reduzir risco.
No curto prazo, essa lógica traz conforto operacional. No longo prazo, tende a gerar produtos tecnicamente corretos, mas pouco relevantes do ponto de vista urbano e de mercado.
No desenvolvimento imobiliário, os projetos não se realizam de forma imediata. Eles atravessam ciclos longos de concepção, obra, comercialização e ocupação. Por isso, decisões tomadas na origem precisam continuar fazendo sentido anos depois, em contextos econômicos, sociais e comportamentais diferentes.
É nesse intervalo entre o agora e o futuro que a diferenciação passa a fazer diferença real.
Padronização sustenta a governança. Originalidade constrói valor
A padronização é, sim, fundamental para a governança de qualquer desenvolvimento imobiliário. Processos, controles, métricas, cronogramas e estruturas financeiras dependem de padrões bem definidos para garantir previsibilidade, eficiência e viabilidade. Sem padronização, não há escala, controle nem segurança na execução.
O desafio surge quando a padronização deixa de ser uma ferramenta de gestão e passa a ditar o próprio conceito do projeto. Nesse ponto, cria-se um limite claro para a geração de valor.
Pensar fora da caixa, nesse contexto, não significa abrir mão da governança. Significa usar a estrutura como base sólida para construir diferenciação. Essa diferenciação não agrega valor apenas para o consumidor final, mas também para investidores, que enxergam projetos com identidade própria como ativos mais resilientes e menos expostos à obsolescência ao longo do ciclo imobiliário.
Essa reflexão vai além da estética urbana e precisa ser observada também sob a ótica da escala de produção e do comportamento do mercado ao longo do tempo.
A padronização questionada por João Gomes não se restringe às formas arquitetônicas. Ela reflete um modelo de produção que tende a repetir soluções consolidadas, criando um padrão construtivo dominante. Aqui, é importante afastar o debate do gosto pessoal entre linhas modernas e minimalistas ou referências mais orgânicas e tradicionais.
O ponto central está na capacidade do projeto de gerar conexão. Identidade, pertencimento e sensação de acolhimento, fatores que influenciam diretamente a percepção de valor. “Aconchego vende”. E isso não significa abrir mão de tecnologia ou eficiência construtiva, mas compreender que o conceito de morar pode ser mais amplo e se tornar um argumento poderoso de decisão, tanto para o comprador quanto para o investidor.
O ciclo imobiliário e o risco de desenvolver olhando apenas para o presente
Sob uma ótica mais técnica, essa discussão se conecta diretamente à lógica da oferta e da demanda no mercado imobiliário. A repetição excessiva de determinados modelos cria, ao longo do tempo, desequilíbrios típicos do ciclo imobiliário. Segmentos que recebem grande volume de lançamentos tendem a entrar em fases de excesso de oferta, enquanto outros perfis de produto se tornam escassos, abrindo novas oportunidades.
Nesse cenário, a originalidade deixa de ser apenas um elemento conceitual e passa a atuar como fator estratégico de mercado. Ela permite que o empreendimento escape da concorrência direta por preço, preserve valor ao longo do tempo e se posicione de forma mais consistente dentro dos ciclos do setor.
Um dos desafios estruturais do desenvolvimento imobiliário é tomar decisões com base apenas no que o mercado está demandando no momento atual. O setor reage rapidamente aos sinais de escassez e esse movimento, embora compreensível, segue uma lógica cíclica bem documentada.
Estudos da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) e de entidades regionais como o Secovi mostram que os ciclos imobiliários são marcados por movimentos recorrentes de ajuste entre oferta e demanda. Quando um determinado tipo de produto começa a faltar, o mercado responde ampliando lançamentos naquele segmento. Com o tempo, essa resposta coletiva gera excesso de oferta, pressionando preços, margens e velocidade de vendas.
Dados históricos de lançamentos e estoques divulgados pelo Secovi-SP ao longo dos últimos anos ilustram esse comportamento. Segmentos que apresentaram forte crescimento em um ciclo específico, como unidades compactas em determinados períodos, passaram posteriormente por fases de maior estoque e menor absorção, enquanto outros perfis de produto se tornaram escassos.
Segundo Cali Galera, Diretor de Novos Negócios da Trinus, essa dinâmica faz parte da natureza do setor, mas exige atenção estratégica:
“O mercado imobiliário tende a correr atrás do que está em falta naquele momento. Se hoje faltam unidades compactas, em pouco tempo todo mundo passa a desenvolver esse produto. Daqui a dois ou três anos, ele pode estar em excesso, enquanto outros perfis ficam escassos. O ciclo se repete. O desafio é não desenvolver olhando só para o agora.”
Esse risco se intensifica porque o desenvolvimento imobiliário não é imediato. Entre a concepção do projeto e sua entrega, o cenário econômico, o crédito e o comportamento do consumidor podem mudar significativamente.
Governança como base para escalar a originalidade e criar valor de mercado
A governança não é o oposto da criatividade. Pelo contrário. É ela que permite que o desenvolvedor pense fora da caixa de forma sustentável, replicável e escalável.
Quando processos, controles financeiros, planejamento e dados estão organizados, o desenvolvedor deixa de apagar incêndios operacionais e passa a direcionar energia para aquilo que realmente diferencia o projeto. A governança cria espaço para decisões mais estratégicas, inclusive no conceito do empreendimento.
É nesse ponto que governança e originalidade se encontram como ativos de mercado.
A crítica de João Gomes à padronização excessiva ganhou força justamente porque encontrou eco no público. Ao afirmar que “todos os projetos eram iguais” e expressar o desejo por algo com identidade própria, ele verbalizou uma percepção coletiva. A repercussão nas redes sociais mostrou que existe um incômodo real com a repetição de modelos, linguagens e experiências.
Para o consumidor final, projetos com identidade clara criam conexão emocional e senso de pertencimento. Para o mercado de capitais, essa mesma identidade funciona como diferencial competitivo. Empreendimentos menos padronizados podem apresentar menor risco de liquidez, maior resiliência ao longo do ciclo imobiliário e melhor preservação de valor, não porque são diferentes, mas porque são mais difíceis de substituir.
Nesse contexto, a governança garante que essa originalidade não seja pontual ou improvisada. Ela transforma identidade em estratégia replicável, sustentada por dados, indicadores e previsibilidade.
Quando governança e originalidade caminham juntas, o empreendimento deixa de ser apenas um produto imobiliário e passa a ser tratado como ativo financeiro.
O que isso muda na prática, para o desenvolvimento imobiliário
À medida que o mercado amadurece, a constância deixa de vir da simples repetição de modelos do passado. Ela passa a depender da capacidade do desenvolvedor de estruturar projetos com visão de longo prazo, preparados para atravessar ciclos econômicos, mudanças de comportamento e transformações urbanas.
A leitura correta do ciclo imobiliário, combinada com governança sólida, permite enxergar além da demanda imediata. É essa estrutura que viabiliza decisões mais conscientes sobre produto, posicionamento e identidade, sem comprometer viabilidade financeira ou previsibilidade de execução.
Nesse cenário, a originalidade deixa de ser um risco e passa a ser consequência natural de um desenvolvimento bem estruturado.
A localização segue sendo central, mas já não é suficiente por si só. A viabilidade é a combinação entre leitura de ciclo, governança consistente e identidade de produto é o que diferencia empreendimentos que atravessam o tempo daqueles que envelhecem rapidamente conforme o mercado muda.
Conclusão
A reflexão sobre padronização e originalidade no desenvolvimento imobiliário vai além da arquitetura. Ela toca diretamente na lógica econômica do setor e na forma como os projetos são concebidos, executados e avaliados ao longo do tempo.
Empreendimentos bem-sucedidos não nascem apenas da demanda atual. Eles nascem da capacidade de antecipar ciclos, estruturar governança e construir diferenciação com propósito, respeitando o território, o público e a dinâmica do mercado.
Em um setor de ciclos longos e capital exigente, governança e originalidade deixam de ser conceitos abstratos. Elas se tornam ativos financeiros, capazes de sustentar valor, atrair capital e garantir relevância ao longo de diferentes fases do mercado.
No novo mercado imobiliário, não vence quem apenas replica o que está em alta hoje. Vence quem constrói projetos preparados para o amanhã, com estrutura, identidade e visão de longo prazo. Projetos que respeitam a história, dialogam com a cidade e entendem as reais demandas da população tendem a atravessar ciclos com mais relevância, valor e consistência ao longo do tempo.