A desaceleração do Índice Nacional de Custo da Construção (INCC-M) em fevereiro de 2026 trouxe um aparente alívio para o mercado imobiliário brasileiro. No entanto, uma análise mais profunda dos dados indica que os riscos de custo para obras e incorporações ainda permanecem relevantes ao longo de 2026.
Segundo dados divulgados pela Fundação Getulio Vargas (FGV), o INCC-M registrou alta de 0,34% em fevereiro, desacelerando em relação aos 0,63% observados em janeiro. No acumulado de 12 meses, o índice chegou a 5,83%, abaixo dos 7,18% registrados no mesmo período do ano anterior.
À primeira vista, o resultado sugere uma redução da pressão sobre o custo da construção. Mas uma análise técnica mostra que o índice consolidado não revela toda a dinâmica de custos enfrentada por incorporadoras e desenvolvedores imobiliários.
O que o INCC realmente revela sobre o custo das obras?
Interpretar corretamente o índice exige olhar além do número mensal divulgado. O comportamento agregado do INCC pode sugerir desaceleração em fevereiro de 2026, mas a composição interna do índice revela pressões importantes que continuam presentes, principalmente na mão de obra especializada e em determinados subgrupos de materiais de construção. Para quem desenvolve projetos imobiliários, olhar apenas o índice consolidado pode levar a decisões de orçamento pouco realistas.
Essa leitura é importante porque o INCC é um dos principais indicadores utilizados no planejamento de obras e na atualização de contratos de construção no Brasil.
Mão de obra especializada continua pressionando o custo da construção
Um dos principais fatores de atenção dentro do INCC é o comportamento da mão de obra especializada, que segue pressionando o custo das obras.
Dados da FGV mostram que esse componente registrou alta de 1,03% em janeiro de 2026, impulsionado principalmente pelo aumento salarial de profissionais como:
- armadores
- encanadores
- pedreiros
- eletricistas
Em fevereiro, o índice desacelerou para 0,39%, mas ainda permanece como um dos fatores estruturais de pressão sobre o custo da construção.
Em mercados imobiliários aquecidos, esse tipo de pressão tende a persistir, principalmente devido à escassez de profissionais qualificados em determinadas regiões do país.
Materiais de construção apresentam volatilidade por fase de obra
Outro ponto que merece atenção é o comportamento dos materiais de construção, que pode variar significativamente dependendo da região e da etapa do empreendimento.
Subgrupos ligados a instalações elétricas e hidráulicas, por exemplo, registraram oscilações relevantes entre janeiro e fevereiro. Isso evidencia que determinadas fases da obra podem sofrer impactos mais fortes do que o índice geral sugere.
Na avaliação técnica da Trinus, o risco não está apenas no índice médio mensal, mas nas oscilações que acontecem dentro dele. Projetos que não acompanham o orçamento de forma granular, por fase de obra e por componente de custo, tendem a acumular desvios que muitas vezes só se tornam visíveis quando o impacto financeiro já é significativo.
Por que o INCC ainda preocupa incorporadoras em 2026?
Outro fator que mantém o índice no radar do setor é que o INCC continua rodando acima da inflação ao consumidor (IPCA).
Isso significa que o custo da construção ainda cresce em ritmo superior ao da inflação geral da economia, o que pode pressionar:
- margens de empreendimentos;
- viabilidade econômica de projetos;
- decisões de investimento no setor imobiliário.
Para desenvolvedores imobiliários, esse cenário exige maior previsibilidade e controle sobre custos.
Governança técnica se torna diferencial competitivo no setor imobiliário
Diante desse cenário, governança técnica e financeira passa a ser cada vez mais um diferencial competitivo para incorporadoras e desenvolvedores imobiliários.
Em projetos financiados ou estruturados junto ao mercado de capitais, por exemplo, o nível de controle sobre orçamento, cronograma físico e fluxo financeiro tende a se tornar cada vez mais determinante.
Quanto maior a complexidade do empreendimento, maior precisa ser o nível de controle sobre orçamento, cronograma físico e fluxo financeiro. Nesse contexto, a governança deixa de ser apenas uma boa prática de gestão e passa a funcionar como instrumento direto de mitigação de risco em cenários de volatilidade de custos.
O que esperar do INCC ao longo de 2026?
A expectativa é que o INCC continue apresentando oscilações ao longo de 2026, refletindo fatores como:
- dinâmica da mão de obra especializada
- variações na cadeia de suprimentos da construção civil
- comportamento regional do mercado imobiliário
Nesse cenário, o acompanhamento técnico contínuo dos projetos tende a se tornar cada vez mais decisivo para preservar margens e garantir a viabilidade financeira dos empreendimentos.
Para desenvolvedores imobiliários, o contexto reforça a importância de planejamento detalhado, monitoramento constante de custos e maior governança ao longo de todo o ciclo de desenvolvimento do projeto.